Nas brumas da memória e da resistência

| Redação

Valek é o soldado modelo do Império de Tharos. Protagonista da fantasia sombria Crônicas das Brumas Densas, escrita por Rafael Mininel, ele foi treinado para obedecer sem questionar e para ser uma arma que sustenta o governo do tirânico Varkonn. Doutrinado desde cedo a acreditar na superioridade do seu povo, participa de campanhas militares e parece não se importar com as tantas mortes que acontecem ao seu redor — até testemunhar um nível de brutalidade que rompe todas as suas crenças. 

Ao receber a ordem de assassinar a população de Porthus, incluindo crianças, idosos e mulheres, o protagonista percebe a dimensão da crueldade pela primeira vez. A cidade, que cheirava a pão fresco e lenha queimada, resistia às margens do poder. Entre casas de barro, cercas de madeira torta, galos cacarejando e crianças correndo, as pessoas viviam em paz, mas tinham que ser mortas por serem consideradas improdutivas. 

A ruptura começa quando ele se depara com uma menina e um menino de três e sete anos, respectivamente, que estão encolhidos sob uma mesa em um casebre. Movido pela urgência de salvá-los, Valek descumpre seu comando, iniciando um confronto contra o sistema. 

A partir dessa circunstância, o personagem adentra uma série de dilemas sobre suas convicções à medida que ganha centralidade nos movimentos contra o Rei Varkonn. Enquanto luta para destruir o autoritarismo, ele revela as consequências da violência estatal, do esquecimento como política de governo e da perseguição em nome de uma limpeza étnica. 

A noite não trouxe alívio, trouxe a histeria. A capital, incapaz de entender que a vitória não era um feriado, tentou improvisar uma festa sem manual. Fogueiras crepitavam, o fogo refletindo nos olhos que ele via brilhar com uma esperança tão frágil que dava vontade de esmagar para que não sofressem depois. Pessoas cantavam canções antigas, distorcendo a melodia; outras gritavam slogans novos, o som seco e sem alma. “Liberdade” virou palavra de boca cheia e significado incerto. Uma mentira vendida em copos de bebida barata. 
(Crônicas das Brumas Densas, p. 57) 

Com uma mitologia própria, o livro apresenta um universo regido por forças metafísicas diferentes. Entre elas, há o Arquivista Sombrio, um consumidor de memórias que se alimenta de versões contraditórias de uma mesma história, e a Primeira Voz, que é o princípio do mundo e existe antes mesmo da linguagem. 

Nesta trama de mil páginas divididas em capítulos curtos, os leitores imergem em uma aventura fantástica ao lado de Valek e figuras como Mira, uma mulher comum que se torna líder da rebelião, Led, cuja existência é considerada uma falha na ordem da criação, e Lyra, uma artista sensível em meio à brutalização. Entre elfos, entidades e fenômenos sobrenaturais, o livro evidencia o preço da lucidez em um mundo onde a verdade pode ser apagada a qualquer momento e o heroísmo raramente é recompensado. 

FICHA TÉCNICA 

Título: Crônicas das Brumas Densas 
Autor: Rafael Mininel 
Editora: Dialética 
ISBN: 9786527416548 
Páginas: 1.000 
Preço: R$ 231 (físico) | R$ 141,33 (e-book) 
Onde comprarAmazon | Dialética 

Sobre o autor: Rafael Mininel é autor de narrativas intensas, existenciais e psicológicas que desafiam as categorias literárias tradicionais. Atravessando gêneros como fantasia sombria, terror psicológico e ficção especulativa, ele já publicou as obras “Crônicas das Brumas Densas”, “Geografia do Não”, “Exemplar de Segunda Mão” e “Quase Tudo que Eu Imaginei”. Além disso, tem contos em diferentes coletâneas e lançará os livros “Depois do Silêncio”, “A Torre que Sangra” e “Memórias Ressurgem”. Formado em Letras pela Universidade Federal de Uberlândia, graduado em Gestão de Negócios pelo Centro Universitário Moura Lacerda e com MBA em Finanças pela Edgard Abreu, o autor também trabalha como bancário. 

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Site: http://escreverafa.com/